Relato da visita aos doentes do Rovisco Pais, em 21 de Dezembro de 2013, feito por um jovem de 17 anos.
Palavras escritas com o coração cheio de amor !
Hoje, dia 24 de Dezembro,
escrevo com muito carinho e alegria, mas, ao mesmo tempo tristeza e
preocupação, por saber que o Natal dos doentes, que visitei dia 21 de Dezembro
junto com o Senhor João, Director Administrativo da Associação Portuguesa Amigos
de Raoul Follereau, com o Carlos, com a Graça, com o Pedro Ramalho e com a
menina Joana, vai ser igual a qualquer outro dia do ano. Ou seja, não sendo um
dia especial, partilhado com aqueles que mais amamos, que mais queremos perto
de nós… Sendo só mais um dia, dito por alguns. Outros até esperando a morte.
Isto não é triste? Isto não toca o coração das pessoas? Pois é, aquelas que
realmente têm coração percebem isto e fazem algo para mudar! Porque isto não é
vida para ninguém. A doença deles não os fazem diferentes da sociedade, foi a
própria que os tornaram diferentes e agora nota-se a desgraça e a miséria que
eles se encontram e as pessoas, mesmo assim, não quererem saber deles para
nada.
Eu entendo que eles estejam
num sítio de difíceis acessos. Ou é longe, ou é complicado de encontrar, ou é
no “fim do mundo”… Gente, o que eu não entendo é o porquê de não fazerem um
esforço para ultrapassarem esses obstáculos! O que é que custa dar apenas a
presença, que é o que eles precisam, pois não têm alguém com quem possam
desabafar, com quem possam falar, com quem possam contar. O que é que custa?
Não custa, praticamente, nada! Falta de companhia e de afecto é o que mais
eles, infelizmente, suportam. Isto não continua a ser triste?
Nós temos os nossos
problemas. Nós temos os nossos obstáculos. Mas ninguém tem as mãos em garra,
ninguém tem a cara deformada, ninguém tem só uma perna, ninguém tem falta de
audição junto com falta de visão, ninguém tem isto tudo misturado ou quase tudo
pois não? Então porque é que continuam a se queixarem que os problemas que
aparecem na vida são catastróficos se há pessoas com problemas maiores e mesmo
assim sorriem e fazem a festa com apenas a presença de pessoas, nem que seja só
um dia por ano. Porquê? Há que ter em consideração que estes doentes não
usufruem da mesma qualidade de vida da maior parte da vida das pessoas que
existe em Portugal.
Estas pessoas,
maioritariamente, possuem grandes carros, grandes GPS’s, grandes roupas,
grandes acessórios, e etc. Porquê é que não fazem o esforço para “perder” um
dia das suas vidas para fazerem uma pequena, mas que para os doentes é gigante,
visita? Eu sei que referi que o sítio é difícil de se encontrar… Mas o GPS
serve para quê? Não custa nada digitar “Hospital Rovisco Pais, Tocha” e irem lá
ter! Sociedade, se vocês tivessem, realmente, coração fariam tudo e mais alguma
coisa para proporcionar do melhor para estes enfermos que só precisam de
carinho e afecto! Em troca, recebem o sorriso deles e boa disposição. Não é
óptimo saber que fazemos pessoas felizes? Vocês não acham o mesmo? As boas
acções são sempre bem-vindas e a consciência tranquila de que fizeram o
correcto, não é importante? Pois é!
Há que aproveitar para dizer
que muitos deles disseram que a maior prenda que tiveram no Natal foi, apenas,
a nossa companhia no dia 21. Acreditem que é emocionante ouvir uma coisa
destas!
Foi a minha segunda visita à
Tocha. E eles ainda se lembravam todos de mim. É mesmo fantástico saber que
posso mudar, pelo menos, num dia a vida daquelas GRANDES pessoas! Receberam-me
de braços abertos para qualquer tipo de afecto e só cumpri com a minha
obrigação como cidadão, dei-lhes o meu coração! Pois o mais importante não é olhá-los
com os olhos, mas sim olhá-los com o coração! Eles percebem bem os nossos
afectos e como tal, retribuem sempre com o sorriso, sempre com as melhores
palavras do mundo, palavras que um bom coração escute e emociona-se com um
simples brilhozinho nos olhos.
Cada um com a sua história!
O senhor Abel sempre o que fala melhor e mais ensina. O senhor José do Carmo,
bons gostos que ele tem, benfiquista sempre. Tão engraçado! O senhor Gil,
sempre com a sua companheira, infelizmente (a sua cadeira de rodas). O senhor
Antunes, o dedicado ao terreno que cultiva. O senhor Monteiro, que da primeira
vez que lá fui não o tinha conhecido e conheci-o agora. Grande homem das
mulheres, muito atiradiço (parto-me a rir com ele). O senhor Fernando, grande
exemplo. Uma das melhores pessoas lá está! Mesmo não vendo, sempre a sorrir e
grande defensor do senhor Carlos. A dona Amélia, com as suas limitações, mas
sempre com palavras fantásticas. A dona Alzira, uma das mais velhas que lá está
e sempre abençoada. A dona Ana, grande mulher! Chamo-lhe a mulher do sorriso,
está-se sempre a rir e é contagiante, portanto, faz com que as pessoas que
estejam perto dela riam-se também! E a dona Emília, momentos que ela partilha
connosco e eu sempre a identificar-me com ela (característica que já tinha
referido no primeiro texto que fiz). Infelizmente fiquei a saber duma coisa que
me preocupa. Rezo por todos, mas especialmente para esta grande mulher que
tanto passa não só por causa da lepra mas também por causa do cancro que tem.
Todos são especiais para mim e cada uma com o seu lugarzinho no meu pequeno
coração que sabe amá-los e que está disposto a comprometer-se a nunca deixa-los
e qualquer oportunidade para ir lá visitá-los, nunca a perder e aproveitá-la ao
máximo.
As vossas vidas são boas,
certo? Mas… E daqueles que mais precisam, não é formidável e maravilhoso sermos
nós a tornar as suas vidas boas? Sinceramente, nós é que temos que fazer a
diferença! E para tal, é preciso ter coração para amá-los e força de vontade
para mudar este mundo discriminante, que tanto faz mal às pessoas que tanto
merecem o bem!
É véspera de Natal e eu só
imagino o péssimo Natal, se é que se pode chamar assim, que eles vão ter… HÁ
QUE PENSAR NISTO (…)
Diogo Nogueira