quinta-feira, 3 de julho de 2014

29 de Junho de 2014, VISITA-CONVÍVIO AOS EX-HANSENIANOS DO ROVISCO PAIS !

RELATO DA VISITA-CONVÍVIO AOS EX-HANSENIANOS DO ROVISCO PAIS
As palavras que tentam traduzir o que o coração sentiu, de alguém que visitou os doentes pela primeira vez...

"Corria o ano de 1950 e um rapaz como outro qualquer tinha o sonho e desejo de se tornar padre, e para tal estudava no seminário.
Ia fazendo os seus castelos de areia:"Um dia serei padre, servirei o Senhor e terei a minha paróquia a quem vou servir com honra e orgulho de dever cumprido."
Mas, com 12 ano foi atacado pela famigerada doença, aquela que ninguém gostava de mencionar, aquela...que os senhores com poder não queriam que se soubesse que existia em Portugal e o povo por estupidez ou desconhecimento tanto temia.
O que fazer com este rapaz?
O melhor seria levá-lo para aquele lugar ladeado por árvores enormes e largas que escondiam na perfeição os "horrores" do que acontecia na que se chamaria "Leprosaria Nacional". Muitos foram levados como se de criminosos perigosos se tratasse pela polícia de então.
Noutro ponto do país, uma menina de 17 anos, contraia a mesma doença e o pai para que ela não fosse tratada como "uma pessoa não grata" , levou-a ele mesma para o dito local.
Essa menina também tinha sonhos de um dia ser como as outras, casar talvez, ter filhos.
Noutro lugar, noutro ano, outro menino com uma voz de rouxinol, foi atingido com a mesma maleita e claro está foi parar àquele local.
Ele na altura via bem, mas a doença cegou-o e a esperança de se tornar "alguém" morreu para ele.
Estas são algumas histórias reais de quem contraiu a doença de Hansen (lepra), e que ouvimos no dia 29 de Junho de 2014 na visita-convivio aos residentes do Hospital Rovisco Pais, na Tocha, Cantanhede, Coimbra.
A APARF - Ermesinde organizou esta visita, com saída às 8 da manhã junto da sua sede em transporte generosamente cedido pela Junta de freguesia da S, Pedro Fins.
Recebemos logo cada um uma flor com uma mensagem (diferente para todos), oferecida pela incansável Graça Oliveira: "O que é uma estrada que não conduz a lado nenhum? É a vida sem Deus"; " A caridade tudo pode vencer....e tudo pode curar".
Paragem rápida em Antuã, e eis-nos chegados ao destino por volta das 10.30.
Visitamos alguns residentes e todos temos logo consciência de que as lembranças que lhes damos não é o que tem mais valor para eles, mas sim os beijos, os abraços, o saber ouvi-los, deixa-los contar a história da sua vida..... Enfim aquilo que os aprisionou quando crianças ou muito jovens, as desilusões, as decepções, o ter falhado por força de maior o que tinham sonhado que um dia seriam ou teriam.
Eram no entanto horas de ir à missa naquela mesma capela dividida em três partes distintas: ala dos homens com lepra, ala das mulheres com lepra e a do clero sem lepra, claro.
A capela está muito degradada, mas as imagens de Nossa Senhora e a de Cristo dão-lhe uma imponência sem igual, mesmo ali ao lado da alcatifa vermelha esfarrapada. A cruz que ocupa a parede central, é imponente, grande e leva-nos a pensar que quem a fez, representou nela o sentimento das pessoas que sofreram e sofrem com esta doença.
Seguiu-se o almoço no restaurante: sopa de legumes/canja; lombo/vitela; pudim/salada de frutas e por fim o café.
Retornamos ao Hospital Rovisco Pais, para estarmos com outros residentes e para a confraternização com os outros grupos visitantes e assistir à animação musical e lanche partilhado.
Eram horas de regressar a casa.
Leváramos tão pouco e recebêramos tanto daquelas pessoas que nos mostraram a sua raiva por lhes ter acontecido a eles semelhante atrocidade mas que a seguir nos agradeceram a nossa ida como se dela se tivessem alimentado e rejuvenescido.
A nossa missão foi ir à Tocha levar animo e amizade, um gesto de solidariedade para aquelas pessoas que a vida renegou por estupidez e mesquinhice. Éramos meia dúzia de pessoas, no entanto sorrimos pois em Antuã, estavam só 15 camionetas cheias, para uma confraternização de Oliveira de Santa Maria - Felgueiras que rumava a Viseu.
Tenho a certeza que no fim do dia os seus corações não vinham tão cheios daquele sentimento que nos assolou a todos nós vindos do Hospital Rovisco Pais.
A Ema, o Vítor e eu tivemos a possibilidade de viver este momento com estes doentes que tiveram sonhos perdidos, quimeras desfeitas mas seguiram em frente e ficam gratos pelo pouco que se fez e dão tanto sem esperar reembolso.
Bem-haja aos voluntários da APARF - Associação Portuguesa dos Amigos de Raul Follereau pelo seu trabalho da luta contra a lepra.
Agradeço ao Carlos Santos e à Graça Oliveira, este dia que marcará sem sombra de dúvida a minha vida e a da Ema e Vítor.

Até ao Natal amigos ou até para o ano."


Mariana Costa Gonçalves

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