quinta-feira, 4 de julho de 2013

ENCONTRO-CONVÍVIO COM OS ENFERMOS DO ROVISCO PAIS !... 30 de Junho de 2013

TESTEMUNHO 
 30 de Junho de 2013 
Confesso que ao ser convidada para ir visitar os nossos irmãos e amigos internados no Hospital da Tocha, não sabia o que me esperava. Há anos, li uma reportagem sobre este tema, e após pesquisa encontrei uma reportagem publicada no JN em 25 de Janeiro de 2009: “Abel Almeida, 83 anos, é um dos que sobreviveram à lepra, mas quiseram continuar a viver na antiga leprosaria da Tocha, em Cantanhede. É perito em maquilhar a revolta com humor. Não esconde as mãos sem dedos e parece recordar cada instante, desde a infância, quando a doença o transformou num presidiário. "Fiz-me um autodidacta, aprendi com a lei da vida: a pontapé e a soco". Nessa altura, viviam 21 leprosos no Hospital Rovisco Pais, alguns foram ficando pelo caminho, sucumbindo à doença, mas também à dor que lhes assolava a alma pelo abandono e pela rejeição. Neste momento, são 14 pessoas que vivem ali. O primeiro choque foi, sem duvida, aquele hospital frio, quase vazio de tudo e longe do nada, ali perdido, dentro de uma enorme área de terra, rodeada de arvores para que seja fácil esconde-lo da civilização... Apesar da preparação, não entendi, como não entendo, que em pleno xxi continue a existir o preconceito, o medo e a ignorância, relativa a esta doença, que faz com que se atirem para o isolamento seres humanos, com sentimentos, emoções e desejos, muito melhores do que muitos de nós, os normais! Sobre isto, o Sr. Abel, diz na mesma reportagem aos jornalistas, a quem tinha o gosto de servir de guia, sem ter medo de dar a cara marcada pela doença e sofrimento: “"É esta que tenho, quem não quiser olhar não olhe" e faz questão de esclarecer: "Não viemos de Marte! Somos diferentes só do ponto de vista físico!". Diferentes, apenas, do ponto de vista físico, apenas e só isso... Emocionei-me com todos, mas ficarei para sempre no meu coração com o Sr. Fernando, com a cara deformada pela doença, cego, mas sem sombra de revolta ou vergonha que canta e encanta, quando entoa a pedido do Sr. Carlos Santos: “ Eu sou o Pão Vivo que desceu dos Céus!” Nesta altura, as lágrimas rolavam pelo meu rosto, porque Deus, não me tirou, como a ele, a sensibilidade (um dos sintomas da doença) de as sentir nos meus olhos! Meu Deus, como sou injusta Contigo, quando reclamo com os (quase nenhuns) problemas com que me deparo no dia a dia e por fim a Dª Rosalina, uma linda Sra de cabelo branco, de 93 anos, vim a saber que, vaidosa, só assume ter 73 … com os pés amputados! Disse-me que lhe doíam os pés, olhei e vi o que restavam deles envoltos em gaze, para a consolar (?) disse que também me doíam os meus, Meu Deus, não sabia o que dizer e disse esta barbaridade, e ela para me ajudar disse: “coitadinha, mas também me doem muito os meus!” O que dizer mais? Apenas agradecer a quem me convidou para este Domingo, o Sr Carlos Santos e a todos os amigos que com ele colaboram na APARF, agradecer por mim, mas também por eles, pois são, sem duvida, as pessoas que mais se preocupam com o seu bem estar, porque família “nem vê-los!” como disse o Sr. José Gil! Obrigada! 
Lucia Peres Ricon

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