sábado, 10 de outubro de 2009

PADRE DAMIÃO DE VEUSTER : gigante da caridade !



Damião de Veuster, padre e missionário belga que se dedicou aos doentes de lepra na ilha havaiana de Molokai, onde morreu vítima da mesma doença, vai ser canonizado a 11 de Outubro.

Gandhi disse um dia que não há entre políticos e jornalistas uma figura da estatura e do valor do P.e Damião. Na verdade, a vida deste apóstolo dos leprosos comoveu e sensibilizou pessoas dos mais variados quadrantes ideológicos e religiosos por esse mundo fora. É o único não americano a ter uma estátua no Capitólio de Washington, na galeria dos Heróis da América.
Jozef de Veuster nasceu a 3 Janeiro de 1840, numa família numerosa, trabalhadora e religiosa, na aldeia de Tremelo, perto da cidade de Lovaina, na Bélgica, e desde cedo manifestou o seu gosto por cerimónias religiosas e dedicação aos pobres. Aos 18 anos, sente o chamamento de Deus e, um ano mais tarde, ingressa na Congregação dos Sagrados Corações, trocando o seu nome de José por Damião.
Oferece-se para ir para o Havai, um arquipélago no meio do oceano Pacífico, em substituição do seu irmão sacerdote da mesma congregação, que adoecera com a febre tifóide. Distribui a sua foto pela família, convicto de que não mais iria voltar a vê-los, e leva consigo apenas um pequeno crucifixo. De facto, nunca mais voltou. Parte do porto de Bremen, na Alemanha, e chega a Honolulu, capital do Havai, em 1864.

FAZER DE TUDO

Sem perder tempo, põe mãos à obra e inicia a construção de uma capela e habitação. De constituição forte, o jovem missionário conseguiu, em poucos meses, construir quatro capelas. Ao mesmo tempo que ganha a estima e a admiração do povo, tem de enfrentar hostilidades vindas de alguns sectores protestantes e de um feiticeiro que inveja a popularidade do P.e Damião.
A pedido de um colega, troca de lugar e vai para o distrito de Kohala, estabelecendo-se na aldeia de Mahukona, onde o esperava uma maioria de pagãos e protestantes. Aqui também conquistou a amizade das pessoas. Viajava a cavalo, a pé ou de piroga para visitar as aldeias distantes, passando fome e frio e suportando as adversidades dos opositores. Fez de tudo um pouco, desde médico, pedreiro, carpinteiro, passando por cozinheiro, professor, até abrir as covas para enterrar os leprosos defuntos.
Embora tivesse um carácter irascível, tinha uma predilecção especial pelas crianças, com quem gostava de brincar, acolhendo-as em sua casa e dando-lhes de comer. Construiu um orfanato para os filhos dos doentes da lepra.

LEPRA NA ILHAS

Varias doenças contagiosas, trazidas por comerciantes estrangeiros, começaram a espalhar-se pelo arquipélago, causando muitas mortes. A lepra, de modo especial, ia-se disseminando e provocando o terror entre as pessoas. Era crença comum que a lepra era causada pela sífilis. Com o objectivo de estancar a transmissão da lepra, as autoridades impuseram a deportação dos leprosos para a ilha de Molokai, onde eram despejados, vivendo completamente isolados em condições sub-humanas. Entre os deportados havia alguns católicos que o missionário visitava uma vez por ano. Não imaginava que um dia mais tarde iria para lá viver com eles até ao fim da sua vida.

NA ILHA MALDITA

Um dia o bispo, D. Maigret, convocou os missionários, revelando-lhes a sua preocupação pelo estado de abandono em que se encontravam os leprosos em Molokai, conhecida como a «ilha maldita». Procurava um missionário que fosse morar para lá, com o intuito de dar assistência espiritual aos doentes. Já lá havia sido construída uma igreja. Damião, juntamente com outros três missionários, pôs-se à disposição do bispo para ir para Kalawao, uma localidade do Norte de Molokai, onde se encontrava a igreja. Aí chegou em 1873 juntamente com o seu bispo, que o apresentou aos leprosos católicos. Ao todo, viviam na ilha cerca de 800 leprosos, que recebiam um subsídio do governo central que mal dava para comer. Havia uma leprosaria com uns 50 leprosos, homens e mulheres. Eram deixados à sua sorte, sem assistência de ninguém.
Admirado por uns e odiado por outros por inveja, o missionário belga concebeu um plano para a aldeia que previa a construção de 300 casas para os leprosos e, graças à sua insistência, as autoridades de saúde começaram a distribuir a cada doente todos os dias uma porção de alimentos. Damião curava as feridas, construía casas e camas, fazia caixões e cavava as sepulturas. A sua chegada à ilha marcou uma viragem na vida dos doentes: impôs leis, transformou barracas de lata em casas, organizou o trabalho nas terras e construiu escolas.

«NÓS OS LEPROSOS»

A sua identificação com os doentes chegou a tal ponto, que nos seus discursos se referia com frequência a «nós leprosos». Uma previsão que viria a tornar-se realidade. Depois da missa visitava a leprosaria. Metade dos leprosos eram católicos, levava-lhes conforto espiritual e ajudas materiais. Acompanhava os mortos à sepultura e fazia-lhes os caixões, tal era a pobreza em que viviam.
Envolvido na melhoria das condições materiais dos enfermos, o P.e Damião de Veuster também se dedicava à evangelização dos não cristãos e à assistência espiritual dos baptizados. Formava catequistas, que eram os seus mais preciosos colaboradores na evangelização, fundou uma escola de canto e uma pequena banda de música, criou uma irmandade cujos membros visitavam e ajudavam os doentes que o missionário não conseguia encontrar pessoalmente e uma outra irmandade para adoração perpétua.
Um dia, quando lavava os pés com água muito quente, apercebe-se de que o pé esquerdo estava insensível ao calor, o que lhe levanta suspeitas de que tivesse contraído a lepra. Um médico leprólogo confirma-lhe esse mesmo diagnóstico: estava leproso. Numa carta ao bispo da diocese, aceita resignadamente a enfermidade, dizendo-se «calmo, resignado e felicíssimo no meio do meu povo». Com o passar do tempo, sente-se cada vez mais enfraquecido. Não obstante isso, continua a trabalhar, a celebrar a missa, a rezar o breviário, a servir os leprosos. Escreveu ao seu irmão, P.e Panfilo: «Estou sempre feliz e contente e, se bem que muito doente, nada desejo senão fazer a santa vontade de Deus.» Com a chegada das Irmãs Franciscanas à leprosaria, sente que já pode morrer em paz pois nelas tinha encontrado a continuação da assistência e cuidado dos enfermos. Morreu a 15 de Abril de 1889, aos 49 anos de idade, 16 dos quais passados entre os leprosos de Molokai.

HERÓI DO AMOR

A notícia da sua morte espalhou-se por todo o mundo provocando consternação entre muitas pessoas que o conheciam. Morria assim o padre leproso, que mais tarde haveria de ser declarado patrono dos leprosos, doentes da sida e marginalizados. A sua vida é um símbolo de como a sociedade actual deve cuidar das novas «lepras», da sida e outras, dos doentes mais pobres, dos enfermos discriminados por causa da sua doença.
Em 1936, os seus restos mortais foram transladados para o seu país natal, onde recebeu funeral de Estado e foi declarado herói nacional. O Papa João Paulo II beatificou-o em 1995.

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